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21 de outubro de 2026 . Blog

Assoei o nariz e o ouvido entupiu ou doeu: o que fazer agora

Se você foi assoar o nariz e o ouvido entupiu ou doeu, provavelmente a pressão empurrou ar e muco para a entrada da tuba auditiva, canal que liga o nariz ao ouvido médio. Costuma passar em horas ou dias: não assoe de novo com força, engula, boceje, mastigue. Sangue ou secreção no ouvido, ou audição que caiu, pedem avaliação logo.

Dr. Fausto Nakandakari, otorrinolaringologista. CRM/SP 129706 · RQE 37660. Atualizado em 21/10/2026.

O que fazer agora: engolir, bocejar, mastigar, e não assoar de novo

A tuba auditiva abre por um instante cada vez que você engole ou boceja (Hamrang-Yousefi e colaboradores, StatPearls), e mascar chiclete faz você engolir mais vezes. É por isso que essas coisas simples costumam ser o suficiente para o ouvido destampar nas horas seguintes. O que eu peço:

  • Não assoe de novo com força. Se precisar limpar o nariz, assoe de leve, uma narina de cada vez.
  • Engula, boceje, mastigue. Beber água em goles, mascar chiclete ou bocejar de propósito abrem a tuba sem pressão.
  • Não pingue nada no ouvido. Gota, óleo, soro ou água no canal não chegam ao ouvido médio, que fica atrás do tímpano, e podem atrapalhar o exame se você precisar vir ao consultório.
  • Não use cotonete. O problema não está no canal do ouvido, e o cotonete só empurra cera.
  • Dê tempo. O consenso internacional de 2015 sobre disfunção da tuba chama de aguda a forma que dura menos de três meses e a descreve como passageira, muitas vezes depois de um resfriado e às vezes depois de uma crise de rinite (Schilder e colaboradores, 2015). Na prática, o ouvido que tampou numa assoada costuma destampar em horas ou em poucos dias.

Se além de tampar o ouvido doeu, a dor faz parte do mesmo quadro: o mesmo consenso lista desconforto ou dor entre os sintomas da disfunção da tuba, junto com a pressão e a sensação de ouvido cheio (Schilder e colaboradores, 2015). No consultório, essa dor costuma ir embora junto com a pressão, nas mesmas horas. O que me faz querer ver o ouvido no mesmo dia é a dor forte que não passa, dor de ouvido em criança, ou dor com sangue ou secreção saindo do ouvido. O que uso e o que evito para a dor de ouvido está em outro post, sobre remédio para dor de ouvido.

Se o ouvido não destampar em alguns dias, ou se aparecer dor forte, febre, secreção saindo do ouvido ou perda de audição, procure o otorrino.

Pessoa assoando o nariz com um lenço

Assoar o nariz com força gera uma pressão muito maior que a do espirro, e ela chega ao ouvido médio

A pressão dentro do nariz durante uma assoada é dez a quatorze vezes a de uma tosse ou de um espirro: 66 mmHg, contra 6,6 na tosse e 4,6 no espirro, medidas em adultos por Gwaltney e colaboradores (2000), que mostraram que uma única assoada é capaz de empurrar até 1 mL de secreção do nariz para dentro do seio maxilar. Esse estudo mediu o nariz e os seios da face, não o ouvido. Para o ouvido, o que eu encontrei foram dois estudos pequenos. Em adultos resfriados e com o tímpano inteiro, um estudo acompanhou a pressão do ouvido médio por sete horas e meia e viu que ela sobe de forma rápida quando a pessoa assoa o nariz, e não muda quando funga (Knight e Eccles, 1993). Em 18 pacientes com o tímpano perfurado, nos quais a pressão pôde ser medida diretamente, assoar com as duas narinas fechadas fez a pressão subir de forma grande e rápida, e fungar de novo não mudou nada (Sakikawa e colaboradores, 1995).

Juntando os três: quando você fecha o nariz e sopra com força, a pressão não tem para onde ir além do fundo do nariz, onde fica a abertura da tuba auditiva. Ela empurra ar para o ouvido médio, e junto com o ar pode ir um pouco de muco, sobretudo se você está resfriado ou em crise de rinite. O resultado é o que você sentiu: o ouvido tampa, o som fica abafado, às vezes dói, às vezes estala. É o mesmo mecanismo que eu descrevo quando a lavagem nasal vai para o ouvido.

Se a sua pergunta é se assoar o nariz pode furar o tímpano: procurei e não encontrei estudo que mostre isso em um ouvido sadio. O que está medido é a pressão. Lesão do ouvido interno depois de uma assoada forte existe em relatos raros de caso (Lee e colaboradores, 2015), e é por isso que a audição que cai de repente depois de assoar está na lista de alerta mais abaixo.

Disfunção da tuba auditiva: se o ouvido continua tampado dias depois, a causa costuma estar no nariz inflamado

Quando o ouvido continua tampado dias depois da assoada, o que eu procuro é o que mantém a tuba auditiva inflamada: rinite sem controle, sinusite ou um resfriado que se arrasta. A tuba ventila o ouvido médio, protege o ouvido e escoa secreção; quando ela não abre direito, a pressão atrás do tímpano fica negativa e o ouvido tampa, e esse quadro se chama disfunção da tuba auditiva. O consenso internacional de 2015 descreve os sintomas como pressão ou sensação de ouvido cheio, “embaixo d’água”, estalos, zumbido, a própria voz ressoando dentro da cabeça, audição abafada e desconforto ou dor, e diz que a forma aguda muitas vezes vem depois de uma infecção de via aérea superior, às vezes depois de uma crise de rinite alérgica, que, segundo o painel, provavelmente inflamam a abertura da tuba (Schilder e colaboradores, 2015).

Isso explica por que a assoada “entupiu” o ouvido de quem estava resfriado e costuma poupar quem estava bem: a tuba já estava inflamada, e a pressão só completou o quadro. Por isso, nesses casos, eu olho menos para a assoada e mais para o nariz, e tratar o que está inflamando a entrada da tuba é por onde eu começo.

O mesmo consenso diz que conseguir “estalar” o ouvido (tapar o nariz e soprar) mostra que a tuba abre, mas não serve para dizer se há ou não disfunção, porque não é sensível nem específico o bastante. O diagnóstico é feito olhando o tímpano, medindo a pressão atrás dele com a timpanometria e, quando preciso, vendo a abertura da tuba por dentro do nariz.

Spray com corticoide não mostrou benefício na tuba: o que os estudos dizem

Corticoide nasal não destampou a tuba auditiva melhor que placebo nos estudos que compararam os dois (Gluth e colaboradores, 2011; Nibhanupudy e colaboradores, 2024). Os autores da meta-análise de 2024 registram que as diretrizes atuais recomendam observar em vez de usar corticoide nasal para isso, ponto que eles mesmos chamam de controverso. A resposta que você talvez já tenha em mente é “preciso de um spray”, e ela mistura duas coisas. Para a rinite e para o nariz entupido, o tratamento do nariz faz sentido por ele mesmo, e é tema da página da rinite. Para destampar a tuba, a evidência não sustenta o corticoide nasal. Nenhum dos quatro estudos abaixo mostrou benefício do corticoide nasal na tuba auditiva:

Estudo O que comparou Resultado na tuba
Gluth e colaboradores, 2011ensaio com 91 pacientes, seis semanas: corticoide nasal contra placebosem diferença na timpanometria nem nos sintomas
Nibhanupudy e colaboradores, 2024meta-análise de quatro ensaios, 512 orelhas: corticoide nasal contra controlerazão de chances 1,21 (0,65 a 2,24): sem diferença; os autores citam diretrizes que recomendam observação
Mehta e colaboradores, 2022revisão sistemática dos tratamentos clínicos em adultoscorticoide nasal ineficaz nos casos crônicos, com melhora em 11% a 18%; sem evidência de primeiro nível para nenhum tratamento clínico
Llewellyn e colaboradores, 2014avaliação de tecnologias em saúde, várias intervençõespouco consenso; descongestionante aplicado direto, só melhora de muito curto prazo; evidência de baixa qualidade

Esses estudos foram feitos em disfunção já instalada, com líquido ou pressão negativa atrás do tímpano, e em casos crônicos; nenhum testou o ouvido que tampou numa assoada e destampa em dias. O que eles mostram é que não há motivo medido para mirar a tuba com o spray. O descongestionante em spray tem ainda um limite próprio: usado por dias seguidos, ele entope o nariz por rebote, a chamada rinite medicamentosa, que explico na mesma página. Então o que resolve a maioria dos ouvidos tampados depois de uma assoada é o tempo; nos que não destampam, o que eu trato primeiro é o nariz inflamado.

Quando procurar o otorrino: os sinais que não esperam

otorrino fausto nakandakari

A maioria dos ouvidos tampados por uma assoada não precisa de consulta. Procure atendimento logo, sem esperar o ouvido destampar sozinho, se houver:

  • Sangue ou secreção saindo do ouvido, dor, perda de audição, vertigem ou zumbido novo depois da assoada: são os sinais de perfuração do tímpano descritos no capítulo de Sutton e Weimer (StatPearls), que também orienta não deixar entrar água no ouvido enquanto ele cicatriza. O que me faz querer ver no mesmo dia é a dor forte que não passa.
  • Audição que caiu de repente e não voltou em horas, com ou sem zumbido e tontura. A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia sobre surdez súbita diz que o reconhecimento e o manejo precoces podem melhorar a recuperação (Chandrasekhar e colaboradores, 2019). Tontura forte junto com a queda da audição, logo depois de uma assoada forte, é o quadro raro de lesão do ouvido interno que o relato de Lee e colaboradores (2015) descreve. Não espere para ver se melhora.
  • Dor de ouvido em criança, com ou sem febre: criança com dor de ouvido depois de assoar precisa de exame de qualquer jeito, e o quadro mais comum é a otite média.
  • Ouvido tampado que não melhora em alguns dias, ou que tampa toda vez que você assoa ou faz lavagem nasal: aí o que importa é o que mantém a tuba inflamada, e isso se investiga.

O que eu avalio na consulta

Começo pelo ouvido, com o otoscópio: vejo se o tímpano está íntegro, retraído, com líquido atrás ou com sinais de otite. Depois olho o nariz, porque é lá que a tuba começa. Quando o quadro se repete ou não fecha com o exame simples, uso a nasofibrolaringoscopia para ver a abertura da tuba por dentro do nariz, e meço a audição e a pressão do ouvido médio com a audiometria e a timpanometria, feitas aqui na clínica. Se houver cera tampando o canal, ela sai antes, por lavagem ou aspiração, em outro atendimento, separado do exame, porque cera e ouvido tampado por pressão dão a mesma sensação e tratamentos diferentes.

A conduta depende do que eu encontro: um ouvido só com pressão negativa depois de um resfriado pede tempo e cuidado com o nariz; líquido atrás do tímpano que não escoa pede acompanhamento; rinite sem controle pede tratamento da rinite.

Se o ouvido tampou e você quer uma avaliação, a equipe responde pelo WhatsApp (11) 97250-7449 ou pelo telefone (11) 3801-2838. Atendo adultos e crianças no consultório em Perdizes, São Paulo; como é a consulta está nessas duas páginas.

Como evitar que aconteça de novo

Assoar de leve é o que evita a pressão que empurra ar e muco para a tuba, e no consultório eu oriento assoar uma narina de cada vez; se o ouvido tampa toda vez, a causa está no nariz, e é ela que se trata.

  • Assoe de leve, uma narina de cada vez. É a orientação que dou no consultório. A pressão alta medida ao assoar nos estudos citados neste post é a da assoada com força, e o único que descreveu como se assoou usou as duas narinas fechadas (Sakikawa e colaboradores, 1995).
  • Resfriado e rinite: cuide do nariz antes de limpar o nariz. Lavagem nasal com técnica (frasco de aperto suave, sem força, cabeça inclinada) e tratamento da rinite reduzem a inflamação na entrada da tuba. A técnica da lavagem está descrita no post sobre dor de ouvido depois da lavagem nasal.
  • Se tampa toda vez, investigue. Desvio de septo, rinite sem controle ou, em crianças, adenoide aumentada são o que eu procuro quando o ouvido tampa toda vez; refinar a técnica não resolve o que está por trás.

Perguntas que escuto no consultório

Fui assoar o nariz e meu ouvido doeu: o que fazer?

O mesmo que para o ouvido tampado: não assoe de novo com força, engula, boceje, mastigue e dê tempo. A dor faz parte dos sintomas da disfunção da tuba que o consenso de 2015 lista, junto com a pressão e o ouvido cheio (Schilder e colaboradores, 2015), e costuma passar com ela. Dor forte que não passa, dor em criança, ou dor com sangue ou secreção saindo do ouvido pedem avaliação logo.

Como desentupir o ouvido depois de assoar o nariz?

Engolindo e bocejando, que abrem a tuba auditiva sem pressão (mascar chiclete faz você engolir mais vezes), e dando tempo: costuma destampar em horas ou em poucos dias. Nada de pingar no ouvido, nada de cotonete e nada de assoar de novo com força. Se passou de alguns dias, o nariz inflamado é por onde eu começo, e isso eu vejo na consulta.

O ouvido estalou quando assoei: isso é bom ou ruim?

O estalo é o ar passando pela tuba auditiva. Conseguir “estalar” o ouvido mostra que a tuba abre em algum grau, mas o consenso de 2015 diz que isso não serve para dizer se há ou não disfunção (Schilder e colaboradores, 2015). Estalo seguido do ouvido destampando é o esperado. Estalo que se repete enquanto o ouvido continua tampado é um dos sintomas que o mesmo consenso lista para a disfunção da tuba. Estalo seguido de dor forte, tontura ou queda da audição pede avaliação logo.

Assoar o nariz pode furar o tímpano?

Procurei e não encontrei estudo que mostre perfuração por assoar em um ouvido sadio. O que está medido é que a pressão do ouvido médio sobe ao assoar, em adultos resfriados com o tímpano inteiro (Knight e Eccles, 1993) e em pacientes que já tinham o tímpano perfurado (Sakikawa e colaboradores, 1995). Se depois de assoar saiu sangue ou secreção do ouvido, ou a audição caiu, isso sim pede avaliação logo.

Quanto tempo o ouvido fica entupido depois de assoar o nariz?

Em geral, horas; às vezes poucos dias, sobretudo se você está resfriado ou com rinite, porque a tuba já estava inflamada. A forma aguda da disfunção da tuba é, por definição, passageira: dura menos de três meses (Schilder e colaboradores, 2015). Se passou de alguns dias sem melhorar, ou se houver qualquer sinal da lista de alerta, procure o otorrino.

Pingar alguma coisa no ouvido ajuda a destampar?

Não. O ouvido tampado por pressão está atrás do tímpano, e nada que se pinga no canal chega lá. Gota, óleo e soro no canal só atrapalham o exame. O que abre a tuba é engolir, bocejar e dar tempo. Se a sua dúvida é sobre soro fisiológico depois da lavagem nasal, respondo no post sobre dor de ouvido depois da lavagem nasal.

Fontes

Conteúdo escrito e revisado por Dr. Fausto Nakandakari, otorrinolaringologista, CRM/SP 129706 · RQE 37660, com atendimento em Perdizes, São Paulo.

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