Como identificar a Adenoide Aumentada
Por Dr. Fausto Nakandakari — CRM 129706 SP | RQE 37660
A adenoide é um tecido linfático situado na nasofaringe — a região posterior das fossas nasais, acima do palato mole. Faz parte do anel linfático de Waldeyer, que é uma estrutura de defesa do trato respiratório superior contra microrganismos e alérgenos inalados. Em condições normais, esse tecido cumpre seu papel imunológico sem causar sintomas. O problema surge quando a adenoide cresce de forma desproporcional ao espaço disponível na nasofaringe e passa a obstruir a passagem de ar pelo nariz.
Essa hipertrofia é particularmente comum na faixa etária pediátrica. A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve que a adenoide tem seu pico de crescimento entre os 5 e 6 anos de idade, com tendência a redução natural a partir dos 8 ou 9 anos. Mas entre esses marcos existe um período em que muitas crianças convivem com uma via aérea nasal parcialmente bloqueada — e as consequências podem ir desde o ronco noturno até alterações no desenvolvimento facial. Identificar essa condição cedo é o que permite intervir no momento certo.
Os sinais clínicos que os pais devem observar
A hipertrofia de adenoide não se manifesta de forma aguda. É um quadro que se instala progressivamente, e por isso é comum que os pais se adaptem aos sintomas sem perceber que algo está errado. A criança que sempre respirou pela boca pode nunca ter sido questionada sobre isso em casa — simplesmente “é assim que ela respira”.
Na minha prática clínica, os sinais que mais frequentemente levam os pais ao consultório são: respiração bucal persistente durante o dia e a noite, ronco habitual (que considero significativo quando ocorre em mais de três noites por semana), boca constantemente aberta, sono agitado com despertares frequentes e, em casos mais avançados, pausas respiratórias observadas pelos pais durante o sono da criança.
Existem outros sinais que nem sempre são associados à adenoide pelo público leigo: a voz anasalada (hipernasalidade), o mau hálito matinal, a boca seca ao acordar, a dificuldade de concentração escolar e a hiperatividade. A criança que dorme mal por obstrução nasal não completa os ciclos de sono adequadamente — e o impacto no comportamento diurno pode mimetizar déficit de atenção. Já vi isso mais vezes do que gostaria de admitir.
Respiração bucal crônica: por que não é “só um hábito”
A respiração bucal causada pela hipertrofia de adenoide não é uma preferência da criança. É uma compensação mecânica: o nariz está parcialmente bloqueado, e a boca se torna a via alternativa. A persistência desse padrão, quando mantido por meses ou anos, provoca alterações estruturais no crescimento craniofacial — o que a literatura denomina fácies adenoidiana.
As características da fácies adenoidiana incluem face alongada e estreita, palato ogival (céu da boca alto e em formato de “V”), mordida cruzada posterior, protrusão dos incisivos superiores e posição de boca aberta com lábio superior encurtado. A diretriz S2k sobre hipertrofia de adenoide, publicada na revista HNO em 2023, inclui a má-oclusão documentada como um dos dez critérios reconhecidos para indicação de adenoidectomia em crianças.
Costumo orientar os pais de forma direta: a respiração nasal não é apenas uma questão de conforto. É uma necessidade funcional para o desenvolvimento adequado da face, da arcada dentária e da oclusão. Quando a obstrução é identificada e tratada dentro da janela de crescimento craniofacial, muitas dessas alterações são reversíveis. Quando é tardia, algumas se consolidam.
Adenoide aumentada pode causar problemas nos dentes?
Sim, e esse é um ponto que merece atenção porque frequentemente passa despercebido. A relação entre respiração bucal crônica e má-oclusão é bem estabelecida na literatura. A criança que respira pela boca mantém a língua em posição baixa, o que altera a pressão sobre o palato e as arcadas dentárias em fase de crescimento. O resultado, ao longo de meses e anos, é um palato estreito e alto, dentes apinhados e desarranjos oclusais que depois precisarão de correção ortodôntica.
Na prática, quando recebo uma criança com esse perfil, costumo recomendar que o ortodontista ou odontopediatra também faça parte da avaliação — não porque eu esteja delegando o diagnóstico, mas porque o tratamento integrado (otorrino + ortodontia) tende a ser mais eficiente do que abordar cada problema isoladamente.
Otite de repetição e a conexão com a adenoide
A adenoide hipertrofiada pode bloquear a abertura da tuba auditiva na nasofaringe. Quando isso acontece, a ventilação do ouvido médio fica comprometida — e o resultado é acúmulo de líquido na caixa timpânica, o que chamamos de otite média secretora (ou otite média com efusão). A criança pode apresentar perda auditiva condutiva, sensação de ouvido tampado ou otites médias agudas de repetição.
A relação entre adenoidectomia e melhora da otite média com efusão tem suporte em estudos clínicos. Uma revisão publicada no Current Otorhinolaryngology Reports mostrou que, em crianças a partir de 4 anos de idade, a adenoidectomia reduziu a necessidade de recolocação de tubo de ventilação de 36% para 17%. A diretriz S2k de 2023 inclui a otite média com efusão persistente por mais de 3 meses como indicação reconhecida para a cirurgia.
Uma observação que faço com frequência no consultório: nem toda otite de repetição em criança se deve à adenoide. A avaliação precisa considerar outros fatores — idade, exposição a creche, tabagismo passivo, história de alergias. A adenoide é uma causa provável, não a única causa possível.
Como o diagnóstico é confirmado
A suspeita clínica nasce da história contada pelos pais e do exame físico. Mas a confirmação do grau de hipertrofia exige visualização direta ou indireta da adenoide, porque esse tecido não é visível a olho nu na cavidade oral — ele fica atrás e acima do palato mole.
Nasofibrolaringoscopia
A nasofibrolaringoscopia é o exame que considero indispensável quando há suspeita de hipertrofia significativa. Consiste na introdução de um endoscópio flexível pela fossa nasal, permitindo a visualização direta da adenoide, do grau de obstrução da coana e do estado da tuba auditiva. É feito em consultório, sem sedação, em poucos minutos. A maioria das crianças a partir de 3-4 anos tolera o procedimento sem dificuldade relevante.
A vantagem sobre o raio-X é clara: a nasofibrolaringoscopia permite avaliar não apenas o tamanho, mas a textura da adenoide, a presença de secreção purulenta, e se há outros pontos de obstrução (como hipertrofia de cornetos ou desvio septal). É uma avaliação dinâmica, não uma imagem estática.
Raio-X de cavum
O raio-X lateral da nasofaringe (raio-X de cavum) é um exame de triagem acessível e não invasivo. Mostra a relação entre o tamanho da adenoide e a coluna aérea posterior. Tem limitações: não diferencia tecido adenoideano de secreção, não avalia comorbidades e pode subestimar ou superestimar a obstrução dependendo da técnica e do momento da respiração. Eu o utilizo quando a nasofibrolaringoscopia não é viável, mas prefiro a endoscopia como avaliação definitiva.
Audiometria e impedanciometria
Quando existe suspeita de perda auditiva ou otite média com efusão, solicito audiometria e impedanciometria (timpanometria). A timpanometria é particularmente útil porque avalia a complacência da membrana timpânica e detecta presença de líquido no ouvido médio — informação que influencia diretamente na decisão terapêutica. A diretriz S2k recomenda tympanometria bilateral e audiometria como parte da avaliação pré-operatória quando há envolvimento otológico.
A adenoide aumentada sempre precisa de cirurgia?
Não. E essa é provavelmente a pergunta mais frequente que escuto no consultório. A resposta depende de três variáveis: o grau de obstrução, o impacto clínico na criança e a resposta ao tratamento conservador.
A abordagem inicial, quando a obstrução não é grave, pode incluir corticosteroide nasal tópico e lavagem nasal com solução salina. A diretriz S2k de 2023 reconhece o tratamento conservador (incluindo observação clínica e corticoterapia nasal) como conduta inicial válida. A adenoide tende a regredir com a idade — e em parte dos casos, a criança melhora espontaneamente sem necessidade de cirurgia.
A adenoidectomia entra em discussão quando a hipertrofia compromete de forma significativa a qualidade de vida: obstrução nasal persistente com respiração bucal crônica, ronco habitual com apneia obstrutiva do sono, otite média com efusão que não resolve em 3 meses, infecções adenoidianas recorrentes (4 ou mais episódios de rinossinusite purulenta em 12 meses), ou alterações documentadas no crescimento craniofacial. A diretriz internacional lista dez critérios para indicação da cirurgia — nenhum deles é isoladamente absoluto, e a decisão sempre considera o conjunto.
A criança perde imunidade se retirar a adenoide?
Essa preocupação é legítima e aparece em quase toda consulta em que discuto a possibilidade de adenoidectomia. A Sociedade Brasileira de Pediatria é objetiva sobre esse ponto: não há diminuição da imunidade após a remoção da adenoide. O sistema imunológico envolve múltiplos órgãos e tecidos linfoides distribuídos pelo corpo — tonsilas palatinas, tonsilas linguais, placas de Peyer no intestino, linfonodos cervicais — que compensam a ausência do tecido adenoideano.
O que eu procuro explicar aos pais é o seguinte: quando a adenoide está cronicamente infectada ou obstruindo a via aérea, ela deixou de cumprir sua função protetora e passou a ser fonte de doença. A remoção, nesse contexto, não debilita a imunidade — libera a criança de um problema que estava gerando mais prejuízo do que benefício.
Com que idade a cirurgia pode ser feita?
A adenoidectomia pode ser realizada a partir dos 2 anos de idade, quando a indicação clínica é clara. A faixa mais frequente na prática é entre 3 e 7 anos, que coincide com o período de maior volume adenoideano e de maior repercussão clínica. A diretriz da AAO-HNS (American Academy of Otolaryngology—Head and Neck Surgery), publicada em 2019, recomenda que crianças menores de 2 anos ou com comorbidades específicas (obesidade, síndrome de Down, malformações craniofaciais, doenças neuromusculares) realizem polissonografia antes da indicação cirúrgica.
A taxa de complicações é baixa. A hemorragia pós-operatória ocorre em aproximadamente 0,5% a 0,8% dos casos, segundo dados compilados em revisões da literatura. A insuficiência velofaríngea (alteração temporária na ressonância da voz) é rara e, quando ocorre, tende a se resolver espontaneamente. Considero a adenoidectomia uma cirurgia segura quando bem indicada — mas “bem indicada” é a expressão-chave.
A adenoide pode voltar a crescer depois da cirurgia?
Pode. O recrescimento de tecido adenoideano é possível, embora a incidência não seja alta. Ocorre com mais frequência quando a cirurgia é realizada em crianças muito pequenas (antes dos 2 anos) ou quando a remoção foi incompleta. O acompanhamento pós-operatório com o otorrinolaringologista é fundamental para detectar recidiva precoce — especialmente se os sintomas obstrutivos retornarem.
Na minha experiência, o recrescimento clinicamente significativo (a ponto de exigir reoperação) é incomum. Mas não é zero, e os pais devem estar cientes dessa possibilidade antes da cirurgia. Transparência sobre o procedimento — incluindo suas limitações — faz parte do atendimento.
Quando a avaliação otorrinolaringológica se torna necessária
Recomendo que a criança seja avaliada por um otorrinolaringologista quando os pais identificam qualquer combinação dos seguintes sinais de forma persistente: respiração predominantemente bucal, ronco em mais de três noites por semana, sono fragmentado com pausas respiratórias, otites de repetição, voz anasalada constante, ou quando o pediatra identifica sinais de fácies adenoidiana ao exame físico.
A avaliação não significa automaticamente indicação cirúrgica. Em muitos casos, o resultado é orientação clínica, tratamento medicamentoso e acompanhamento. A cirurgia é reservada para os casos em que o impacto sobre a respiração, a audição, o sono ou o desenvolvimento craniofacial justifica a intervenção. A decisão é sempre individualizada — e esse é um princípio que não aceito flexibilizar.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Nenhuma orientação aqui substitui a avaliação presencial individualizada.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Adenoide — Pediatria para Famílias. sbp.com.br
- Ahmad Z, Krüger K, Lautermann J, et al. Adenoid hypertrophy—diagnosis and treatment: the new S2k guideline. HNO. 2023;71(Suppl 1):3-10. PMC 10409824
- Mitchell RB, Archer SM, Ishman SL, et al. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;160(1_suppl):S1-S42. PubMed 30921525
- Schupper AJ, Nation J, Pransky S. Adenoidectomy in Children: What Is the Evidence and What Is its Role? Curr Otorhinolaryngol Rep. 2018;6:64-73. PMC 7100808
Dr. Fausto Nakandakari — CRM 129706 SP | RQE 37660. Otorrinolaringologista com atuação em adultos e crianças, com subespecialização em voz e laringe. Atende em consultório particular em Perdizes, São Paulo.